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Sem pause.

Ex-jogadora profissional de VALORANT, Tayhuhu relata os desafios de conciliar maternidade, carreira e saúde mental dentro dos eSports.

Por Vinicios Alexander · 8 min · 10.05.26
Sem pause: os desafios da maternidade dentro dos eSports — Tayhuhu
Imagem: 442FX | Foto: Reprodução/Instagram (@tayhuhu)

Os eSports são esportes eletrônicos que podem ser categorizados como uma forma organizada e competitiva de se jogar jogos eletrônicos, como por exemplo, os videogames. A modalidade existe há, no mínimo, 50 anos, mas com o avanço da internet, os eSports só cresceram.

Embora o cenário ainda seja frequentemente associado ao público masculino, os números revelam outra realidade.

52,8%dos jogadores brasileiros são mulheres
Pesquisa Game Brasil (PGB)

Ainda assim, a presença feminina em cargos de destaque, transmissões, equipes profissionais e nos bastidores da indústria segue sendo um desafio. A rotina intensa dos eSports, somada às responsabilidades, cria uma jornada marcada pela necessidade de conciliar carreira, vida pessoal e a pressão por desempenho.

Seja em transmissões ao vivo, campeonatos, produção de conteúdo ou funções administrativas, mulheres relatam dificuldades que vão desde a falta de apoio até o preconceito dentro de um ambiente historicamente dominado por homens.

Taynah “Tayhuhu” Yukimi em estúdio
Foto: Reprodução/Instagram | @tayhuhu

Taynah Yukimi, 26 anos, conhecida no cenário como Tayhuhu, é ex-jogadora profissional de VALORANT e acumula passagens por organizações tradicionais, como INTZ, B4 eSports e LOUD. Ela é mãe de Wendy, de 8 anos, e atualmente é caster no VALORANT Esports Brasil e participa de transmissões oficiais da Riot Games.

INTZ, B4 eSports e LOUD

Mãe de Wendy antes mesmo de se tornar profissional, Tayhuhu construiu sua trajetória no cenário competitivo conciliando maternidade, treinos e a rotina intensa dos jogos on-line. A entrada no competitivo aconteceu de forma natural, inicialmente como hobby, sem imaginar que transformaria aquilo em profissão.

“Eu sempre gostei de competir, mas era mais como hobby. As coisas foram acontecendo de forma muito natural”, relata.

Para a caster, a maternidade transformou completamente sua forma de enxergar a vida e o futuro. Segundo ela, ser mãe mudou tudo e trouxe novas responsabilidades para lidar com a carreira. “Você deixa de viver só por você e passa a construir o futuro pensando na pessoa que mais ama. Tudo gira em torno do seu bebê”, afirma.

Mesmo com os grandes desafios da rotina, a experiência da maternidade de Tayhuhu sempre esteve ligada a um sentimento de realização pessoal. “Foi uma transformação completa, mas como ser mãe sempre foi um sonho, até os momentos difíceis foram especiais”, conta.

A profissional também ressalta a importância da rede de apoio durante sua trajetória, especialmente para conseguir permanecer ativa dentro dos eSports enquanto criava a filha. Para ela, a maternidade trouxe amadurecimento e força para lidar com a pressão do cenário competitivo.

“Você se torna mais resiliente, mais forte para lidar com pressão, e isso te inspira todos os dias. Ver minha filha me olhando com os olhinhos brilhando, falando de mim com orgulho, isso me dá certeza de que estou no caminho certo”.

Taynah “Tayhuhu” Yukimi

Tudo por aquela pessoinha

Tayhuhu durante uma competição de eSports
Foto: Reprodução/Instagram | @tayhuhu

Quando iniciou no cenário competitivo de VALORANT, em 2020, Tayhuhu via um ambiente feminino marcado por dificuldades, como rivalidade e machismo.

“Existia muita rivalidade entre mulheres, muitas vezes em busca de uma aprovação masculina que nem vinha. Tinha machismo, falta de reconhecimento e até falas abertamente preconceituosas”, disse.

Segundo ela, a chegada do VALORANT ajudou a transformar parte dessa realidade, principalmente com maior aproximação entre o cenário inclusivo e jogadores profissionais da modalidade.

Tayhuhu acredita que, apesar dos avanços, o preconceito contra mulheres ainda permanece presente dentro dos jogos on-line e comunidades competitivas. “Eu achava que isso diminuiria com o tempo, mas sinto que, nos últimos três ou quatro anos, houve até um aumento na misoginia”.

Ainda que o ambiente competitivo profissional tenha se tornado mais respeitoso nos últimos anos, Tayhuhu conta que partidas ranqueadas e parte da comunidade seguem reproduzindo comportamentos hostis contra mulheres.

A pressão da rotina competitiva também impactou a saúde mental de Tayhuhu. Durante a passagem pela LOUD, a ex-jogadora afirma ter enfrentado burnout ao conciliar treinos, campeonatos e a vida familiar.

Segundo ela, a rotina na LOUD era extremamente intensa, com semanas inteiras passadas no office e fins de semana tomados por campeonatos, quase sem descanso.

“Quase não tinha descanso. Isso começou a afetar quem eu era como pessoa. Ficar longe da minha família, não acompanhar o crescimento da minha filha, tudo isso pesou muito. Acabei entrando em burnout”.

Com o esgotamento da carreira de atleta, a decisão de deixar o competitivo veio pouco depois. O convite para atuar como caster nas transmissões oficiais de VALORANT surgiu como uma oportunidade de permanecer nos eSports.

Caster na Riot Games

Hoje, com uma rotina diferente do mercado competitivo, Tayhuhu afirma ter encontrado uma forma mais saudável de permanecer dentro do cenário. Como caster, a profissional acompanha campeonatos, estuda as equipes para suas análises e comentários na transmissão.

“É uma forma de continuar no cenário competitivo e, ao mesmo tempo, estar mais presente com a minha família e acompanhar o crescimento da minha filha”, explica.

Apesar da rotina mais tranquila, alguns desafios continuam presentes: os fins de semana ainda são ocupados por transmissões e campeonatos, período em que poderia passar mais tempo ao lado da filha.

Tayhuhu também destaca a importância da rede de apoio familiar, especialmente do marido, Gabriel Faria, a quem define como peça fundamental para sua permanência no cenário competitivo: “Sem ele, nada disso seria possível. Ele sempre esteve comigo em cada decisão”.

Para Tayhuhu, permanecer nos eSports também significa abrir caminhos para outras mulheres que desejam ocupar o mesmo espaço. A caster encoraja para que mulheres não tenham medo de se posicionar. “Se você deixar a crítica ou o machismo te parar, eles ganham”, aconselha.

“Continue. Não jogue mutada, não tenha medo de se posicionar. Se alguém te desrespeitar, aí sim você muta, mas nunca deixe de fazer algo por causa de crítica ou machismo. Pra muita gente, é só ‘brincadeira’, mas pra você é sua vida, sua identidade, seu sonho. É muito melhor tentar e falhar do que viver com arrependimento por causa de pessoas que nem fazem ideia do impacto que causaram”.

Tayhuhu

O cenário precisa deixar de exigir uma escolha

Histórias como a de Tayhuhu refletem os desafios enfrentados por diversas mulheres que tentam construir carreira nos eSports enquanto conciliam maternidade, rotina profissional e vida pessoal.

Para a iniciativa Mulheres nos eSports, criada em 2024 com foco no fortalecimento feminino dentro da indústria, a dificuldade de permanência no cenário vai além de casos individuais e está diretamente ligada à estrutura dos eSports.

A criadora da organização, Sofia Bedeschi, afirma que houve avanços na presença feminina nos últimos anos, mas que a evolução ainda acontece de forma lenta. “Hoje existem comunidades, iniciativas e mulheres ocupando espaços que antes sequer imaginávamos. O que faltava era espaço”, disse.

A falta de flexibilidade da indústria, para ela, é um dos maiores obstáculos que afastam as mulheres de carreiras nos eSports.

“O cenário gamer ainda opera em horários noturnos, com eventos presenciais que exigem deslocamento e estrutura que poucas mães conseguem bancar sozinhas. Soma isso à ausência de políticas de apoio nas organizações e você tem um ambiente que, mesmo sem querer, exclui. Não por maldade, mas por falta de atenção a quem precisa de condições diferentes para jogar”.

Apesar dos avanços dos últimos anos, Sofia acredita que ainda existe um longo caminho para que os eSports se tornem um ambiente verdadeiramente inclusivo para mulheres, especialmente mães. Para a fundadora do MNE, a presença feminina aumentou dentro do cenário, mas as mudanças estruturais ainda acontecem em ritmo lento.

“A mudança de discurso aconteceu. Já a mudança de estrutura ainda está engatinhando. Ainda vemos poucas mulheres em cargos de liderança, poucos contratos que consideram a realidade de quem é mãe e pouco investimento em iniciativas que vão além do mês de março. O cenário precisa entender que inclusão de verdade é estrutural, não é campanha”.

Sofia Bedeschi, fundadora do Mulheres nos Esports

Para Sofia, mudanças práticas poderiam tornar o cenário mais acessível e acolhedor para mulheres mães dentro dos eSports. “Eventos em horários acessíveis, transmissões online como alternativa ao presencial, contratos com cláusulas que respeitem a maternidade e organizações que invistam ativamente na criação de condições reais de permanência”, aponta.

Além das mudanças estruturais, Sofia acredita que ainda é necessário combater preconceitos relacionados à maternidade dentro da indústria.

“Não é só porque ela é mãe que ela é menos competente ou possui menos vontade de fazer acontecer. Muito pelo contrário: ela consegue ter empatia, mais jogo de cintura e adaptação de cenários, sabe lidar com várias demandas e consegue organizar tudo isso de maneira prática e objetiva”.

Para Sofia, um dos principais desafios para o futuro do cenário é mudar a forma como a maternidade ainda é enxergada dentro dos eSports. Segundo ela, ser mãe não deveria ser tratado como um obstáculo para mulheres que desejam seguir carreira na indústria.

“A maternidade precisa parar de ser tratada como um desvio de rota e começar a ser vista como o que é: uma fase da vida que não apaga a habilidade, a paixão ou o potencial”, afirma.

A fundadora do MNE acredita que o cenário ainda impõe às mulheres uma escolha entre carreira e vida pessoal, realidade que, para ela, precisa mudar.

“O cenário precisa deixar de exigir que mulheres escolham entre ser mãe ou ser gamer”.

Sofia Bedeschi

Mulheres nos Esports

Criado em 2024, o Mulheres nos Esports surgiu com a proposta de fortalecer a presença feminina dentro do cenário competitivo e criar espaços de acolhimento para mulheres que atuam na indústria. Segundo Sofia, a repercussão do projeto evidenciou uma demanda que já existia dentro da comunidade gamer.

“O MNE é prova disso. Nascemos em 2024 e, em menos de 24 horas, já tínhamos mais de 100 mulheres querendo fazer parte”, afirma.

Para a fundadora, iniciativas como o MNE também cumprem um papel importante na construção de redes de apoio entre mães que atuam nos eSports, permitindo a troca de experiências e o fortalecimento coletivo dentro de um cenário ainda marcado por desafios estruturais.

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