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Muito além do GG.

Porque, às vezes, o melhor de uma partida está do outro lado da tela.

Por Vinicios Alexander · 8 min · 12.06.26
Muito além do GG — casais dos esports brasileiros
Imagem: 442FX | Foto: Reprodução/Instagram/X (@raafa, @amd22k, @bluvlr e @zapvlr)

21 de setembro de 2024. Em uma watch party em São Paulo, Victoriah “Blu” acompanhava cada segundo da grande final do VCT Ascension Américas. Do outro lado da tela, no México, Brenno “Zap” liderava a 2GAME Esports em uma série histórica para o Brasil. Após cinco mapas contra a M80, a equipe brasileira confirmou a vitória por 3 a 2 e conquistou o título. Em meio às celebrações, porém, veio um momento que nem mesmo Blu esperava. Diante das câmeras, o capitão da 2GAME aproveitou a entrevista pós-jogo para fazer uma última pergunta:

“Victoriah, casa comigo?”

Brenno “Zap”, capitão da 2GAME Esports

A comemoração pelo título já havia tomado conta do ambiente. Gritos, abraços e a euforia de uma conquista brasileira se misturavam à barulheira da watch party. Ao perceber que Zap começava a entrevista, Blu se aproximou da televisão para conseguir ouvir melhor.

Por um instante, o título ficou em segundo plano. Entre olhares curiosos e sorrisos ansiosos, uma pergunta ecoa entre as pessoas ao redor: “E aí?”. A resposta veio sem hesitação.

“Sim, eu aceito”.

Victoriah “Blu”

Aquela noite terminou com duas comemorações. A primeira, pela conquista da 2GAME. A segunda, pelo início de um novo capítulo para um casal que havia se encontrado graças aos esports.

Como eles chegaram até aqui?

Blu e Zap
Foto: Reprodução/X | @bluvlr

Victoriah Luiza Ceniz, mais conhecida como Blu, tem 29 anos, é jogadora profissional de VALORANT e construiu sua trajetória por organizações como Liberty, Stars Horizon, LOUD e 2GAME. Atualmente, atua como free agent.

Brenno Roberto, o Zap, aos 28 anos, acumula passagens por equipes como Team oNe, Keyd Stars, Tuzzi e-Sports e 2GAME. Hoje, defende a TBK Esports.

Blu conheceu Zap durante o First Strike, o primeiro campeonato internacional de Valorant, em 2020. Enquanto assistia aos jogos, um jogador da Nimo oNe chamou sua atenção. Algum tempo depois, uma interação nas redes sociais aproximou os dois e deu início às primeiras conversas.

O relacionamento evoluiu rapidamente. Na época, Zap morava em Brasília, enquanto Blu vivia em Curitiba. Durante cerca de um mês, os dois mantiveram contato à distância até que surgiu a oportunidade de se encontrarem pessoalmente em uma viagem para a casa de uma amiga em comum, ao lado de outros amigos. Quando a viagem chegou ao fim, uma nova mudança se aproximava. Zap estava prestes a se mudar para São Paulo para acompanhar a estrutura presencial de sua equipe. Blu também cogitava deixar Curitiba.

Foi então que surgiu uma pergunta que mudaria o rumo da história dos dois: “E se morássemos juntos em São Paulo?”.

Desde o início, os e-Sports estiveram presentes em praticamente todos os capítulos da história dos dois. A proximidade não veio somente da convivência: eles dividiam a mesma rotina, os mesmos desafios e a mesma paixão pelos e-Sports. “Por trabalharmos com a mesma coisa, acredito que foi o jogo mesmo”, conta Blu.

Mais do que um interesse em comum, os e-Sports se tornaram uma linguagem compartilhada. Uma rotina que ambos entendiam sem precisar de muitas explicações. Treinos, campeonatos, viagens, derrotas e conquistas faziam parte do cotidiano dos dois. E essa compreensão mútua se tornou um dos pilares da relação.

A sintonia entre os dois também aparece nos momentos mais delicados da rotina competitiva. Seja na preparação para uma partida importante ou após um resultado frustrante, cada um desenvolveu suas próprias formas de lidar com a pressão.

Antes dos jogos, Zap costuma apostar em exercícios de respiração e meditação para entrar concentrado. Blu segue um caminho diferente. Ouvir música no volume máximo, fazer um delineado e arrumar o cabelo são pequenos rituais que ajudam a construir confiança antes de entrar no servidor.

Mas é depois das partidas que o apoio mútuo ganha ainda mais importância. Em dias difíceis, Blu prefere se afastar do jogo em um primeiro momento antes de conversar sobre o que aconteceu dentro do game. Já o Zap prefere simplesmente desligar completamente do competitivo por um tempo.

Por trás dos jogadores, existem características que os dois admiram muito mais do que qualquer desempenho dentro do servidor.

Para Zap, o que mais chama atenção em Blu é sua disposição em ajudar as pessoas. “Eu admiro o coração grande que a Victoriah tem, ela sempre quer ajudar os outros, seja dentro ou fora do jogo”, afirma Zap.

Já Blu destaca a dedicação do noivo. Segundo ela, mesmo longe dos treinos, Zap está constantemente buscando maneiras de evoluir e contribuir com a equipe. Assistir partidas, revisar VODs e desenvolver novas estratégias fazem parte da rotina. Uma dedicação que, segundo ela, também aparece fora do competitivo, no cuidado com a família e com as pessoas próximas. “Admiro muito a dedicação que ele tem, no caso do jogo, ele sempre está fazendo algo relacionado ao Valorant pra melhorar tanto o jogo dele quanto do time”.

No fim das contas, o pedido de casamento não aconteceu por acaso após o Ascension. Na verdade, ele já fazia parte dos planos de Zap. “Estava planejado já. Eu tinha uma promessa comigo mesmo de que, quando ganhasse um internacional, faria o pedido para ela”, revela.

Zap e Blu
Foto: Reprodução/Instagram | @zapvlr

A cena que emocionou milhares de espectadores foi apenas o capítulo mais visível de uma história construída muito antes da final. Uma trajetória marcada por conversas pela internet, mudanças de cidade, treinos, derrotas, conquistas e incontáveis horas compartilhando a mesma paixão pelos esports.

Naquela noite, enquanto a comunidade brasileira celebrava um título internacional para a 2GAME, Blu e Zap comemoravam algo ainda maior: a confirmação de uma parceria construída muito além do servidor e pronta para seguir para a próxima fase.

Nem toda história começa diante das câmeras

Às vezes, ela se inicia em um aniversário surpresa. Com um rosto conhecido do cenário aparecendo num lugar inesperado. Com dois jogadores profissionais percebendo que, fora do servidor, também combinavam.

Amanda Abreu, a AMD, tem 31 anos. Ex-jogadora profissional de Counter Strike, hoje atua como caster e é fundadora do Lótus HUB, uma iniciativa voltada para inserir mulheres no mercado de games. Em 2025, foi eleita Personalidade do Ano pelo Prêmio Esports Brasil, a maior premiação da América Latina.

Rafael Lima, o Raafa, tem 32 anos. Também formado no Counter Strike, hoje é jogador profissional de VALORANT. Passou por organizações como Liberty, The Union, Hero Base e FURIA, e atualmente defende a Team Solid. Multicampeão em ambos os jogos, defende o atual cinturão de Campeão Brasileiro de VALORANT.

Por anos, os caminhos dos dois se cruzaram dentro do cenário competitivo. Mesmas organizações. Mesmos campeonatos. Mesmos grupos de amigos. Mas foi apenas em um aniversário surpresa que aquelas trajetórias paralelas finalmente passaram a seguir na mesma direção.

“A gente se conheceu como jogadores profissionais, na época jogávamos nas mesmas organizações na maioria das vezes. Até que um dia ele foi num aniversário surpresa que um amigo fez pra mim e desde então não desgrudamos”, conta AMD.

O relacionamento cresceu rapidamente. E, pouco tempo depois, uma proposta de trabalho colocaria o casal diante da primeira grande decisão da vida a dois. Depois de um ano juntos, AMD recebeu uma proposta de trabalho e, para isso, precisaria se mudar do Rio de Janeiro para São Paulo. E foi assim que decidiram juntar os setups.

Para AMD, a conexão entre os dois nasceu da quantidade de coisas que compartilhavam. Além da profissão, o casal dividia os mesmos hobbies, gostos musicais e até mesmo uma rotina parecida dentro dos esports. “Existe a mística de que os opostos se atraem. Na nossa vida isso foi quebrado. Somos muito parecidos e parceiros, mas, se pudesse definir uma coisa, seria o Counter Strike”, afirma.

AMD e Raafa
Foto: Reprodução/X | @AMD22k

Quando se trata de trabalho, a conexão entre os dois se mostra ainda mais forte. Entre campeonatos, eventos e compromissos profissionais, AMD e Raafa passaram longos períodos separados ao longo dos últimos anos. Enquanto o jogador disputava o VCT Americas em Los Angeles, a caster acumulava viagens para eventos na Polônia e na Alemanha. No fim das contas, a rotina colocou o casal em lados diferentes do mundo durante boa parte do ano.

“Muitas vezes as rotinas não batem por causa dos campeonatos dele e dos meus eventos. Se nós não fôssemos do mesmo meio, não sei se teríamos tanta compreensão sobre essas ausências relacionadas ao trabalho”, explica AMD.

Em dias de campeonato, transmissão ou partidas importantes, AMD e Raafa encontraram formas próprias de cuidar um do outro. Enquanto ela se preocupa em deixar tudo organizado em casa e preparar a alimentação antes dos compromissos do jogador, ele assume as responsabilidades quando é a vez da caster viajar para eventos. E, depois das conquistas, existe uma tradição que o casal faz questão de manter. “Temos nosso ritual pós-título. Sempre vamos no mesmo barzinho para comemorar”, conta AMD.

Quando os dois trabalham no mesmo cenário, é inevitável que as conversas sobre o cenário acabem atravessando a porta de casa. As discussões sobre jogos, jogadores e estratégias fazem parte da rotina do casal. E, em alguns casos, até mesmo as partidas viram motivo para provocações.

“Muuuuuuuuitas”, responde AMD aos risos ao ser questionada se os dois já discutiram por algo que aconteceu dentro de um jogo.

Por atuarem na mesma função, as divergências aparecem com frequência. No Counter Strike, a disputa pode ser por uma posição dentro do mapa. No League of Legends, por uma eliminação que acabou nas mãos do suporte.

“É óbvio que ele tem que deixar eu jogar janela da Mirage mesmo que ele jogue lá, afinal sou a esposa dele. Assim como no LoL, jogamos duo bot e, mesmo sendo suporte, eu vou pegar as kills dele. Ele odeia”.

Amanda “AMD” Abreu
AMD e Raafa juntos
Foto: Reprodução/X | @AMD22k

As discussões existem. Quem fica com a eliminação, quem ocupa qual posição no mapa do jogo: a competitividade não some só porque são um casal. Mas há um limite claro entre o que fica na tela e o que vai pra vida. Apesar das brincadeiras, o casal garante que sabe exatamente onde termina a competição e começa o relacionamento: “Completamente. Acho que se não conseguíssemos [separar], não daria certo”, resume AMD.

Em dias difíceis de carreira, a lógica passa por uma mudança. Para dar suporte ao parceiro, não revisitam derrotas e nem analisam erros.

“Existem momentos em que a gente não conversa porque quer desligar. Quando ele perde algum jogo, por exemplo, nem sempre é legal ficar falando sobre algo negativo. Então procuramos nos motivar ou simplesmente nos abster”, diz AMD.

Sete anos dentro do mesmo cenário constroem uma leitura difícil de explicar para quem está de fora. E ela aparece também na forma como cada um enxerga o outro.

AMD destaca a determinação e ambição de Raafa. “A determinação dele de sempre estar no topo mesmo em jogos diferentes, ele é um capitão que consegue montar incontáveis times campeões. No CS ou no Valorant”, destaca.

Para Raafa, o que define AMD é ainda mais amplo: “A força de vontade dela para correr atrás dos objetivos, o cuidado com a família e a confiança no trabalho”, resume.

Depois de sete anos dividindo campeonatos, mudanças de cidade, viagens internacionais e incontáveis horas dentro dos servidores, a próxima fase da relação parecia apenas uma consequência natural da parceria construída ao longo do caminho.

O momento mais marcante da história dos dois aconteceu em 2025, durante o casamento. Mas, como quase tudo na trajetória de AMD e Raafa, a celebração teve a cara dos dois.

Nada de uma grande cerimônia tradicional. Após o cartório, os noivos seguiram para um barzinho ao lado de amigos e familiares. Entre os convidados, uma presença dominante: a comunidade que acompanhou a trajetória do casal desde o início.

Casamento de AMD e Raafa, em frente ao barzinho, ao lado de amigos e familiares
Foto: Reprodução/X | @AMD22k

“Queríamos algo a nossa cara. Saímos do cartório e fomos comemorar em um barzinho. E 99% dos convidados e padrinhos eram da cena gamer”, relembra AMD.

Para Raafa, a lembrança também ocupa um lugar especial: “Foi um dia muito feliz para nós dois. Estávamos rodeados de pessoas que gostamos e tudo foi muito alegre”.

Talvez não exista forma melhor de resumir a história do casal. Desde o aniversário surpresa que aproximou os dois até o casamento anos depois, AMD e Raafa estiveram cercados pelas pessoas que fizeram parte de suas trajetórias dentro dos esports. Porque, para AMD e Raafa, os esports não foram apenas o cenário onde construíram suas carreiras. Foram também o cenário onde construíram uma vida juntos.

Entre queues, calls e GGs

As histórias de Blu e Zap, AMD e Raafa mostram diferentes caminhos para um mesmo destino. Mas elas estão longe de ser casos isolados.

Nos esports, não faltam casais que começaram como companheiros de equipe, parceiros de duo ou simplesmente pessoas dividindo uma call no Discord.

Às vezes, tudo começa em uma ranked. Em outras, em um servidor criado por amigos. O jogo muda e a história também. Duas pessoas que, sem saber, estavam prestes a encontrar muito mais do que uma partida.

Em 2017, Dani não imaginava que uma publicação feita no Twitter mudaria sua vida. Na época, ela gostava de acompanhar partidas de jogadores de alto nível e frequentemente assistia aos jogos de Estevão, o Nevard. Um comentário, um amigo em comum e algumas mensagens depois, os dois já dividiam filas ranqueadas e horas de conversa.

Dani e Nevard em 2018
Foto: Reprodução/X | @danikakazu

A conexão evoluiu rapidamente. O que começou em partidas casuais logo se transformou em um relacionamento que precisou aprender a conviver com a distância e amadurecer junto com o tempo.

Dentro do jogo, o casal também criou sua própria identidade. Durante uma época, Draven e Nami se tornaram quase uma assinatura da dupla. Sempre que os campeões apareciam em partidas high elo, muitos jogadores já associavam a combinação aos dois.

Dani e Nevard
Foto: Reprodução/X | @danikakazu

Anos depois, o League of Legends continua presente na rotina do casal. Não apenas como o jogo que os aproximou, mas como um hobby compartilhado que carrega lembranças de onde tudo começou.

“O LoL foi o que nos uniu e continua sendo um dos hobbies que temos em comum. Então, jogar juntos sempre vai ter um significado diferente. Nossa sinergia no jogo só melhorou ao longo dos anos”, afirma Dani.

Dani e Nevard no primeiro aniversário da filha, em 2026
Foto: Reprodução/X | @danikakazu

Se algumas histórias levam anos para acontecer, a de Ana Luísa e Pedro Miguel seguiu outro ritmo.

Pedro Miguel, Ana Luísa e a filha Ceci
Foto: Reprodução/X | @nanalutwt

Os dois se conheceram em um servidor de Discord voltado para jogadores de League of Legends. Entre conversas, partidas e chamadas que se estendiam madrugada adentro, a conexão cresceu rapidamente. Em poucas semanas, já discutiam planos para o futuro e falavam sobre família com uma naturalidade que surpreendia até eles mesmos.

Em poucas semanas, Pedro fez o primeiro pedido de namoro, mas Ana recusou. Nunca havia vivido um relacionamento sério e sentia que ainda não estava pronta para aquilo. Os dois seguiram amigos por alguns dias, até que ela decidiu dar uma chance à história e foi quem tomou a iniciativa desta vez.

Tela de seleção de campeões do League of Legends com os títulos “Ela é meu sol” e “Ele é minha lua”
Foto: Reprodução/X | @nanalutwt

O relacionamento avançou em uma velocidade que surpreendeu até as pessoas ao redor. Em janeiro de 2023, começaram a namorar à distância. Poucos meses depois, durante o feriado de Páscoa, Pedro viajou acompanhado da família para conhecer Ana pessoalmente.

Foi nesse encontro que aconteceu mais uma surpresa. Enquanto as duas famílias almoçavam juntas, Pedro fez o pedido de casamento. Ana lembra que sequer havia percebido o que estava sendo planejado.

“Minha mãe chegou a dizer: ‘você sabe que ele vai te pedir em casamento, né?’. Eu não acreditava”, relembra.

Ela aceitou. Hoje, olhando para trás, o casal vê o League of Legends como muito mais do que o jogo que os aproximou. Foi nele que nasceram as primeiras conversas sobre o futuro, os planos para construir uma família e os sonhos que pareciam distantes para dois jovens que se conheciam apenas pela internet.

“A nostalgia de lembrar onde tudo começou e perceber onde chegamos, onde estamos hoje e poder ver a nossa família, a nossa filha que falávamos tanto enquanto jogávamos”.

Ana Luísa

Os jogos são vistos apenas como competição, entretenimento ou passatempo. Um lugar para disputar partidas, subir de elo e buscar vitórias. Mas, para algumas pessoas, eles acabaram se tornando algo mais.

Foram o motivo da primeira mensagem. Da primeira call. Da primeira fila em dupla. O ponto de encontro entre pessoas que talvez nunca tivessem se cruzado fora das telas.

Entre títulos, derrotas, mudanças de cidade, viagens, pedidos de casamento e até o nascimento de uma filha, as histórias de Blu e Zap, AMD e Raafa, Dani e Estevão, Ana Luísa e Pedro mostram que, às vezes, a melhor coisa que se encontra em um jogo não está no placar, mas sim do outro lado da tela.

Especial Dia dos Namorados — 442FX

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