Saúde mental em jogo.
Como pressão, rotina e alto rendimento afetam quem compete nos e-sports.
O crescimento acelerado dos esportes eletrônicos tem ampliado também a preocupação com a saúde mental dos jogadores que competem profissionalmente. Em uma indústria ainda jovem, atletas, organizações e profissionais de diferentes áreas aprendem, muitas vezes durante a própria trajetória, a lidar com as exigências psicológicas de um cenário cada vez mais competitivo e exposto.
Bruno Garcia, psicólogo campeão mundial de VALORANT com a LOUD em 2022, explica que as pessoas envolvidas no cenário fazem parte da primeira geração de profissionais dos e-sports.
“São os primeiros psicólogos, jogadores, jornalistas, nutricionistas, técnicos e organizações. Então é um aprendizado constante durante a própria jornada de trabalhar com os e-sports”.
Esse aprendizado avança em paralelo às pesquisas que começam a dimensionar os impactos psicológicos dessa rotina. Um estudo publicado em 2025 no Journal of Electronic Gaming and Esports, com 1.105 atletas de 65 países, traçou o tamanho do problema.
Para Bruno, parte dos desafios dessa primeira geração profissional está justamente em uma cobrança que deixou de terminar junto com a competição.
“Hoje em dia, o atleta vai dormir e acorda com cobrança como se tivesse uma torcida, mas na palma da mão dele, no celular”.
Bruno Garcia, psicólogo
O cenário se intensifica conforme aumenta o nível competitivo. No estudo, atletas de níveis mais altos apresentaram mais sintomas de ansiedade e depressão do que competidores de níveis inferiores. Entre os possíveis fatores apontados pelos pesquisadores estão expectativas elevadas de desempenho, competição intensa, instabilidade financeira, rotinas exigentes de treinamento e exposição pública.
Entre essas pressões, a instabilidade da própria carreira aparece como um peso recorrente. Em um cenário marcado por contratos curtos, mudanças de equipe e resultados que podem definir os próximos passos, a busca por desempenho também se mistura à necessidade de construir alguma segurança no cenário.
Renan “Siduzord”, atleta profissional de VALORANT com passagens por Stellae Gaming e INTZ, comenta sobre a instabilidade e pressão dentro do próprio cenário competitivo.
“Acredito que todo jogador se sente numa luta diária com a incerteza. Não sabemos qual é o nosso próximo passo, pois não depende apenas de nós. Então estamos o tempo todo na busca de resultados para conseguirmos estabilidade e tirar um pouco esse peso das costas”.
A pressão por resultado também pode transformar o descanso em motivo de culpa. Para Siduzord, reconhecer que algo não vai bem psicologicamente muitas vezes significa admitir a possibilidade de interromper treinos ou competições, algo que, dentro de um cenário tão competitivo, pode ser interpretado como “perder tempo”.
O jogador aponta ainda para um tabu em torno da necessidade de continuar competindo mesmo diante de dificuldades pessoais ou emocionais, acompanhado da expectativa de que uma conquista seja capaz de fazer esses problemas desaparecerem.
A fronteira entre uma rotina de alto rendimento e uma rotina prejudicial, porém, nem sempre é clara. Bruno destaca que os e-sports ainda não possuem precedentes suficientes para mostrar os impactos de décadas de carreira sobre os atletas e alerta que, sem acompanhamento multidisciplinar, jogadores podem desenvolver hábitos prejudiciais que se acumulam ao longo do tempo.
Entre os principais pontos de atenção, o psicólogo cita cinco fatores recorrentes na rotina competitiva: estresse crônico, alimentação inadequada, postura física prejudicial, sono desregulado e sedentarismo. “Se você pegar essas cinco, basicamente é a vida de um atleta de e-sports”, destaca.
Segundo Bruno, alguns sinais de que a rotina começa a ultrapassar o limite saudável podem aparecer antes mesmo de uma queda explícita de desempenho. Irritabilidade, mudanças comportamentais abruptas, cansaço extremo, fadiga mental e esquecimentos estão entre os indicativos observados no acompanhamento dos atletas.
Nesse sentido, aumentar a carga de treino não significa necessariamente se aproximar do alto rendimento. Para Bruno, desempenho e saúde precisam caminhar dentro de uma rotina estruturada.
“O que te torna um atleta de alto rendimento é ter uma rotina de treinamento com objetivos claros, com início, meio e fim, com suporte multidisciplinar e que você consiga se desenvolver durante a sua rotina competitiva. E, para tornar isso saudável e também conseguir se desenvolver, é muito importante que o jogador não entre no overtraining, ou seja, no excesso de treino”.
Construir uma rotina sustentável não depende somente das escolhas individuais dos jogadores. Com uma cobrança constante, calendário competitivo e pressão por resultados, o acompanhamento psicológico dentro das organizações também passa a fazer parte da preparação para competir.
Bruno defende que esse trabalho não deve se limitar ao desempenho dentro do jogo. O acompanhamento passa também por metas de carreira, relações familiares e sociais, saúde física e identificação precoce de vulnerabilidades psicológicas. Para ele, o desenvolvimento de um atleta precisa considerar seu repertório mental e físico de forma ampla, e não apenas aquilo que acontece dentro do jogo.
Esse suporte ganha ainda mais importância quando a preparação encontra o peso de uma grande competição. Para Giovanna “Yungher”, jogadora profissional de Counter-Strike 2, com passagens por B4, Fluxo e atualmente no MIBR, mesmo com o trabalho psicológico prévio, a pressão não desaparece. O objetivo passa a ser impedir que ela torne a partida impossível de jogar.
“Com certeza existe um esforço psicológico para tentar driblar o seu cérebro dizendo que ‘é só mais um jogo’, sendo que, na verdade, você está disputando um Mundial. O campeonato está lá, o peso dele também, o Mundial continua grande. A partida só precisa continuar jogável e, para isso, buscamos sempre trabalhar nosso psicológico nas nossas preparações”.
Yungher lembra do que sentiu ao disputar seu primeiro Mundial, em 2022. O medo, a ansiedade e o nervosismo daquela época já não representam a forma como ela sobe ao palco hoje. Para a jogadora, vivenciar decisões em grandes competições mudou sua relação com o cenário competitivo.
“Pressão está em todo canto, seja de mim mesma, da organização que represento, da torcida, do país quando é em escala mundial. O que muda é a forma como você enxerga. Isso deve servir apenas de combustível e nunca para te pressionar”.
Giovanna “Yungher”, jogadora de CS2 (MIBR)
Para Bruno, essa mudança de perspectiva não significa fazer a pressão desaparecer. Em competições de grande importância, a reação do atleta ao contexto continuará existindo. “Eu acredito que o cérebro sempre vai entender que a gente está em um momento de alta importância. Não é sobre tentar eliminar a ansiedade ou tentar eliminar a pressão. É tentar lidar com ela”, explica.
O psicólogo vivenciou esse processo de perto durante a campanha da LOUD no VALORANT Champions de 2022. Na preparação da equipe que terminaria campeã mundial, uma das estratégias foi construir o que Bruno chama de “bolha interna”, que consiste em uma rotina voltada para aquilo que jogadores e comissão poderiam controlar durante o torneio.
Todos os dias, independentemente de vitória, derrota, treino ou partida oficial, a equipe se reunia antes de ir para os computadores. “A gente tinha a nossa rodinha, olhando olho no olho, se engajando e se relacionando como pessoas, acima do nick”, relembra.
Outro acordo foi se afastar das redes sociais durante o campeonato. A proposta era impedir que expectativas, comentários e reações externas cruzassem a rotina da equipe. “Vamos continuar jogando nosso VALORANT, continuar confiando no outro e criando o que a gente chamou de nossa bolha interna”.
A rotina permaneceu praticamente a mesma da fase de grupos até a final. Para o psicólogo, a confiança construída entre os jogadores e o esforço para manter fatores externos fora do ambiente competitivo tiveram papel importante não apenas no resultado, mas também na maneira como o grupo viveu aquele período. “A gente não só ganhou o campeonato como consequência do nosso esforço e do nosso trabalho, mas desfrutou de estar lá”.
Ainda assim, uma mesma preparação não produz necessariamente a mesma resposta em todos os jogadores. Yungher destaca que a forma de absorver a pressão continua sendo individual, mesmo dentro de uma equipe submetida às mesmas condições.
“Depende de quantas vezes você esteve vivenciando aquilo, do quanto você se preparou para aquele momento e, às vezes, mesmo tendo se preparado muito, acaba caindo no limbo do nervosismo e da sua cabeça tentando te trair”.
Para ela, comentários do adversário, falas dentro da própria equipe ou uma sequência ruim de rounds podem ser suficientes para desestabilizar um competidor. Por isso, além do trabalho coletivo, cada atleta acaba desenvolvendo ferramentas próprias para permanecer na partida. “O nervosismo sempre vai existir”, resume.
A cobrança silenciosa
Se parte do trabalho psicológico passa por impedir que fatores externos dominem a competição, existe uma pressão mais difícil de afastar. A pressão que parte do próprio jogador.
Yungher comenta que a cobrança individual pode se tornar ainda mais perigosa justamente por acontecer de forma silenciosa. Um erro, uma sequência ruim ou a sensação de estar abaixo do próprio nível podem transformar rapidamente a análise do desempenho em um julgamento pessoal.
“A cobrança individual é silenciosa e perigosa. Quanto mais você pensa ‘não tô jogando bem, nada dá certo para mim, eu sou muito ruim’, parece que mais as coisas continuam dando errado”.
Yungher
Durante uma partida, ela tenta interromper esse ciclo voltando a atenção para aquilo que ainda pode ser feito. “O ideal seria blindar a sua mente, ignorar que as coisas estão dando errado para você até aquele momento, focar no próximo round e pensar no que fazer, e não no que já foi. O peso do erro deve ser sentido depois da partida. Durante, não vai ajudar a equipe a chegar a lugar nenhum”.
O problema começa quando essa cobrança não termina junto com a partida. Fora do servidor, a busca constante por desempenho também pode afetar o descanso, a vida social e a forma como o jogador passa a enxergar a si mesmo.
Yungher reconhece que viveu esse processo durante parte da própria carreira. “Eu costumava me colocar para baixo e não achava que era boa o suficiente. Em partes, isso me ajudou a chegar longe, pois eu nunca estive contente com o meu desempenho e sempre busquei mais, porém não sei até que ponto isso foi saudável”, relembra.
Parte dessa cobrança, segundo ela, nasceu ainda no início da trajetória profissional. Por ter começado a competir profissionalmente aos 23 anos, Yungher sentia que precisava compensar o tempo que acreditava ter perdido em relação a outras jogadoras. “Me cobrei muito desde o início, sempre pensei que estava muito atrás do pessoal por ter chegado no cenário de e-sports tarde. Então busquei me dedicar mais do que eu podia, parecia uma competição comigo mesma”.
Essa dedicação também passou a ocupar espaços que antes pertenciam ao descanso e à vida fora do jogo. “Eu não soube respeitar meu descanso e o lado social da minha vida foi praticamente inexistente por três anos”, conta.
Com o tempo, a relação com o próprio jogo começou a mudar. Yungher percebeu que já não conseguia jogar apenas por diversão e passou a levar a mesma exigência do ambiente profissional para partidas com amigos. Naquele período, relata ter enfrentado queda de cabelo e dores de cabeça constantes, sintomas que associou a um possível início de burnout, embora não tenha procurado avaliação profissional na época.
Os sinais descritos pela jogadora se aproximam de alguns dos alertas que Bruno observa quando uma rotina competitiva começa a se tornar prejudicial. Irritabilidade, mudanças comportamentais abruptas, cansaço extremo, fadiga mental e esquecimentos estão entre os indicativos que, segundo o psicólogo, precisam ser acompanhados de perto.
Para Yungher, uma das fronteiras aparece quando o desempenho deixa de ser apenas parte do jogo e passa a dominar completamente a relação com ele. “O problema é quando a obrigação de performar sobrepõe a vontade de jogar por completo. Se a única coisa que importa é performar, qualquer oscilação vira crise. Um dia ruim pode parecer uma falha pessoal”.
Hoje, a jogadora diz enxergar a cobrança de outra forma. Ela continua buscando evolução, mas procura não transformar o erro em um julgamento sobre a própria capacidade. “Não é porque você erra que você é ruim, significa que você é humano”.
A separação entre profissão e lazer também passou a fazer parte desse processo. “Tento não deixar o trabalho apagar o motivo de eu ter começado”.
Além do nick
Identificar esses sinais, no entanto, não deveria acontecer apenas quando o desgaste já compromete a rotina do jogador. Para Bruno, o cuidado com a saúde mental precisa acompanhar toda a temporada e fazer parte da estrutura das organizações.
“A gente não pode tratar o jogador como se ele fosse um avatar. Tem que trabalhar aquele ser humano além do nick, além do jogo”.
Bruno Garcia
Na prática, isso significa entender como o atleta chega para uma temporada, acompanhar indicadores de estresse e ansiedade durante o calendário competitivo e, ao final, avaliar não apenas os resultados alcançados, mas também o desgaste deixado pelo processo.
Para Siduzord, o próximo passo do cenário passa justamente pela profissionalização dessas rotinas. O jogador destaca que atletas chegam a compartilhar oito, dez ou até 12 horas por dia e que esse convívio, assim como a própria carga de treino, exige cuidados físicos e psicológicos que nem sempre apresentam consequências imediatas.
“Por mais que seja algo ‘leve’ como jogar, os problemas podem não aparecer imediatamente. Acredito que, por todas as partes, profissionalismo seria a palavra para definir o próximo passo dos e-sports”, afirma.
Para Bruno, essa profissionalização também passa por transformar momentos de conscientização em ações permanentes. “A gente precisa ter um acompanhamento e não só um lembrete durante setembro, mas fazer com que setembro seja um momento de levantar essa bandeira para depois essas palavras se tornarem ações também”.
Em um cenário que ainda vive sua primeira geração de atletas profissionais, talvez parte do desafio esteja justamente em não esperar décadas para descobrir os efeitos dessa rotina. Entre resultados, títulos e derrotas, construir um ambiente competitivo sustentável passa também por garantir que exista uma pessoa para além do nick.
Esta história termina aqui, mas muitas outras estão apenas começando. Assina o Radar 442FX logo abaixo e recebe a próxima edição da Coluna 442 antes de ela ir pro feed.
A gente escreve sobre marca de esporte porque constrói marca de esporte.
Identidade visual, direção de arte e conteúdo para clubes, atletas e organizações. Conta o seu projeto que a gente responde com um plano — e um preço.